14 de set. de 2010
A economia segundo a Igreja
13:31 | Postado por
Jutahy
| DOGMAS |
| A economia segundo a Igreja |
Para o Vaticano, o capitalismo, o lucro, a mundialização, a exploração da natureza, a exportação de capital, o mercado financeiro, o crescimento e o desenvolvimento não são grandes problemas. A dificuldade atual da humanidade estaria “apenas no excesso” |
| por Serge Latouche |
O uso da “política do oximoro” pelos governos de países ocidentais tornou-se sistemático1. O oximoro, figura de retórica em que duas noções contrárias aparecem justapostas, permite aos poetas sentirem o indizível e expressarem o inexpressável. Na boca dos tecnocratas, serve, sobretudo, para produzir equívocos grosseiros. A burocracia do Vaticano não escapa à regra; podemos inclusive dizer que foi ela quem inaugurou esse tipo de linguagem. A Igreja tem, de fato, uma longa tradição na prática de antinomias: dos hereges queimados vivos “com amor”, passando pelas cruzadas, até outras “guerras santas”. Agora, Bento XVI nos dá um exemplo atual em relação à economia na encíclica Caritas in veritare. Aos olhos de certos religiosos como Alex Zanotelli, Don Achille Rossi, Don Ciotti, Raimon Panikkar, sem esquecer a “demoníaca” Teologia da Libertação, assim como aos de intelectuais como Ivan Illich ou Jacques Ellul, a sociedade atual, que preza pelo crescimento, é condenável por sua perversidade intrínseca e não por eventuais desvios. O Vaticano, no entanto, não compartilha essa visão. O capitalismo, o lucro, a mundialização, a exploração da natureza, a exportação de capital, o mercado financeiro, o crescimento ou o desenvolvimento não são problemáticos para a Igreja; a dificuldade residira “apenas no excesso”. O que chama a atenção é a predominância da doxa (crença) econômica sobre a doxa evangélica. A economia, invenção moderna por excelência, é apresentada como uma essência que não pode ser questionada. “A esfera econômica não é neutra do ponto de vista ético, nem inumana ou antissocial por natureza” (p. 57). Dessa afirmação, pode-se concluir que a esfera econômica pode ser boa apesar de tudo, de modo que a mercantilização do trabalho não é denunciada nem condenada. Paulo VI ensinava que “todo trabalhador é um criador” (p. 65). Isso vale também para a caixa de supermercado? A afirmação parece nos perguntar: “trabalhar é destino?”. Há algo nessa linha de pensamento que soa como o humor involuntário e sinistro de Stalin, que dizia: “Com o socialismo, o trabalho fica mais leve”. A encíclica de Bento XVI é um exemplo gritante de desenvolvimentismo. Aliás, a palavra “desenvolvimento” aparece 258 vezes em 127 páginas, ou seja, uma média de duas vezes por página. Trata-se de uma perspectiva humanista: desenvolvimento de “casa pessoa”, “pessoal”, “humano” e “humano integral”, “verdadeiramente humano”, “autêntico”, “de todo homem e de todos os homens” e até “um autêntico desenvolvimento humano integral” (p. 110). Vê-se que o bem-estar social foi incorporado, assim como a necessidade de uma “solução adequada aos graves problemas socioeconômicos que afligem a humanidade” (p. 7). Esse entusiasmo não escapou aos partidários do papa, que não economizam argumentos em seu favor. “O ‘desenvolvimento humano integral’ é o conceito fundamental de toda encíclica, utilizado pelo menos 22 vezes para ampliar o conceito tradicional ‘dignidade humana’”, sublinha a universitária britânica Margaret Archer, membro da Academia Pontifical de Ciências Sociais2. É possível observar inclusive a fetichização/sacralização dessa ideia: “Se o homem (…) não tivesse uma natureza destinada à transcender, (…) seria possível falar em aumento ou evolução, e não em desenvolvimento”. O desenvolvimento do povo é considerado, assim, uma “vocação”. “O evangelho constitui um elemento fundamental do desenvolvimento”, pois revela o homem a si mesmo. Tudo com o respaldo do papa Paulo VI, cuja encíclica de 1967, Populorum progressio, já dizia: “hoje, os povos da fome interpelam de maneira dramática os povos da opulência” (p. 24) – referência do papa à famosa fórmula de seu predecessor: “o desenvolvimento é o novo nome da paz”. Contrariamente às palavras infelizes de Paulo VI, no entanto, o desenvolvimento não é o novo nome da paz e sim da guerra: guerra pelo petróleo ou por recursos naturais em vias de desaparecimento. Desde sua origem, o crescimento econômico e o desenvolvimento foram empreendimentos agressivos: guerra contra a natureza, guerra contra a economia de subsistência, chamada por Ivan Illich de “vernácula”. Muito antes de o presidente estadunidense Eisenhower explicitar o complexo militar-industrial em torno da guerra, ela já havia se tornado símbolo do desenvolvimento na substituição de carroças por tratores, de pesticida por gás de combate e adubos químicos por explosivos. Em nome da fé Nesse contexto, a paz e a justiça só serão colocadas novamente no centro da sociedade pela ideia de “decrescimento”. Isso implica, contudo, uma desconstrução: abolir de uma vez por todas a economia, renunciar ao ritual do consumo e ao culto ao dinheiro. Não se trata de cair na ilusão de uma sociedade onde o mal estaria definitivamente erradicado, mas de construir uma sociedade em tensão, que enfrenta suas imperfeições e contradições em função de um horizonte em que visa o bem comum em vez de desencadear a avidez. O papa, contudo, não só passa longe dessa perspectiva como parece escrever uma frase diretamente aos “defensores do decrescimento”: “A ideia de um mundo sem desenvolvimento expressa uma falta de fé no homem e em Deus” (p. 20). Todos os clichês desenvolvimentistas são assumidos e reafirmados: “O desenvolvimento continua sendo um fator positivo que tirou bilhões de pessoas da miséria e, finalmente, dá a muitos países a possibilidade de se tornarem atores efetivos na política internacional” (p. 30) – afirmação superficial provavelmente emprestada de seu “especialista”, o economista Stefano Zamagni. Zamagni afirma, em entrevista à revista Un Mondo possibile: “Mesmo levando em conta o crescimento mundial da população, podemos dizer que a porcentagem de pobres absolutos passou de 62% em 1978 a 29% em 1998”3. Não se sabe de onde ele tirou esses números. Se, de fato, os relatórios do Banco Mundial afirmam que houve diminuição da porcentagem estatística relacionada à pobreza absoluta em consequênciado efeito mecânico provocado pelo crescimento chinês, trata-se de uma queda muito modesta – e não dessa espetacular que nutre os fantasmas dos desenvolvimentistas impenitentes. Zamagni deveria lembrar-se do teorema de Trilussa: quando a produção de dois frangos por dois habitantes (cada um produzindo o seu) passa à produção de quatro frangos produzidos por apenas um habitante, a média passa de um frango por pessoa para dois, mas metade da população se encontrar mais empobrecida. Com toda a caridade cristã existente no mundo, seria mais interessante lembrar os dados anunciados em setembro de 2008 pelo diretor-geral da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), Jacques Diouf: o número dos que sofrem de fome crônica passou de 848 milhões no período de 2003-2005 a 923 milhões no fim de 2007. Ou evocar, ainda, os paradoxos levantados pela New Economic Foundation: há alguns anos, essa organização não governamental britânica estabeleceu o “índice da felicidade” (“Happy Planet Index”), que subverte tanto a ordem clássica do Produto Interno Bruto (PIB), como a do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). A mundialização figura como algo positivo no discurso do Vaticano, assim como o sistema de livre-comércio. Essa postura é próxima à da Organização Mundial do Comércio (OMC), à do Banco Mundial e à do Fundo Monetário Internacional, cujo antigo diretor, Michel Camdessus, foi conselheiro de João Paulo II. Em um livro intitulado Notre foi dans le siécle [Nossa fé no século], escrito em coautoria com Michel Albert e Jean Boissonnant, Camdessus vê na globalização “o advento de um mundo unificado e mais fraterno”. Os especialistas cristãos afirmam ainda que “a mundialização é uma forma laicizada de cristianização do mundo”4. A globalização seria “o principal motor para combater o subdesenvolvimento” (p. 50) e não haveria “razão para negar que certo capital pode ser melhor empregado se investido no exterior em vez de na economia nacional” (p. 64). Da mesma forma, a encíclica afirma que o deslocamento empresarial e industrial poderia ser algo muito positivo: “também não haveria razão para negar que os deslocamentos, quando incluem investimentos e formação, podem ajudar as populações dos países receptores” (p. 64). Em consonância com a doutrina da OMC, a encíclica afirma que o protecionismo dos ricos está condenado, pois impediria que os países pobres exportassem seus produtos e tivessem acesso aos benefícios do desenvolvimento; em suma, o protecionismo seria apontado como a causa da miséria dos países em desenvolvimento. “Os países em vias de desenvolvimento necessitam que seus produtos acedam progressivamente aos mercados internacionais, a fim de tornar possível sua plena participação na economia mundializada” (p. 98). Não há qualquer referência, contudo, à injustiça e imoralidade das regras do livre-comércio impostas aos países pobres; bastaria ajudá-los a se adaptar: “É de fato necessário ajudar esses países a melhorarem seus produtos e se adaptarem às demandas” (p. 98). Até mesmo o turismo “pode constituir um fator notável de desenvolvimento econômico e de crescimento cultural” (p. 102). Será que, se não for sexual, o turismo organizado é o prolongamento das peregrinações de São Paulo e seus apóstolos? Graças à confusão gerada pela ideologia dominante entre “mercados” e “Mercado”, ou seja, entre o sistema de troca tradicional e a lógica da oni-mercantilização, essa indistinção tampouco é levada em conta na encíclica. Se na página 98 o termo usado é “mercados internacionais”, em outra é empregado o termo “mercado”, com o mesmo sentido: “A sociedade não deve se proteger do mercado como se o desenvolvimento desse último implicasse ipso facto na ausência de benefícios autenticamente humanos”. Quanto à destruição do meio ambiente, o problema é mencionado, mas de forma bastante sutil: é necessária uma “governança responsável da natureza que garanta sua conservação, sua rentabilidade e novas formas de cultivo com tecnologias avançadas, de forma que ela possa acolher dignamente e alimentar a população que nela habita” (p. 84). Entre a graça de Deus e da técnica, realmente a menção ao meio ambiente é curta. Os desastres da economia capitalista não levam, portanto, à condenação de seus agentes. São responsáveis, sem dúvida, mas não culpados se a extorsão do capital é exercida por um “bom motivo”. Assim como na tortura inquisitorial, a solução da quadratura do círculo entre a lógica econômica e a ética cristã é sem dúvida que “tudo isso seja feito sem ódio” – como pregam os manuais dos inquisidores. Sem ódio e até mesmo com amor. A “economização” do mundo pode ser levada adiante, assim, sob o signo da caridade: é a reconciliação de Deus e de Mamon, entidade bíblica demoníaca ligada à iniquidade, mencionada por São Lucas. A fábula de interesses que favorece a manobra é, por certo, longamente detalhada. “Há uma convergência entre a ciência econômica e os valores morais. Os custos humanos são também custos econômicos” (p. 48). Estamos salvos! Podemos servir aos dois mestres, ao contrário do que diz Lucas em seu evangelho. E tudo isso deve ser mergulhado na água benta dos bons sentimentos, o buonismo, do qual a Itália, sob influência do poder do papa, tornou-se especialista. “A economia, na prática, precisa que a ética do poder funcione corretamente” (p. 75). Felizes são aqueles que ouvem a palavra do Senhor! E assim é lançado um apelo vigoroso à “responsabilidade social” das empresas. Esse apelo, no entanto, pode não ser suficiente, de forma que nas águas geladas da economia calculista é introduzido como reforço o calor da lógica do dom e da paixão (p. 5): “O princípio da gratuidade e da lógica do dom como expressão da fraternidade podem e devem ter um lugar no interior mesmo da atividade econômica normal” (p. 58). A economia solidária, o setor não lucrativo, o terceiro setor, a economia civil são mencionados e exaltados. “É essa mesma pluralidade de formas institucionais empresariais que pode gerar um mercado mais civilizado e mais competitivo” (p. 78). O mito da boa ação, do “bom negócio”, funciona como se a concorrência, promovida por Bruxelas, já não tivesse, ao contrário, desmantelado a economia social e mutualista, assim como grande parte do setor público. A condenação das injustiças e imoralidades da economia mundial por parte da Igreja parece, assim, ir menos longe que as denúncias de “excesso” e apelos à moralização do mercado financeiro e do neoliberalismo feitas pelo G20 de Londres e pelo presidente francês Nicolas Sarkozy. Ou ainda, às declarações do presidente estadunidense Barack Obama sobre a obscenidade dos lucros astronômicos dos bancos. O Grande Inquisidor na parábola do livro Os irmãos Karamazov, de Dostoiévski, tinha razão em dizer ao Cristo: “Vá e não volte nunca mais”. 1 Bertrand Méheust, La Politique de l’oxymore, La Découverte, Paris, 2009. 2 Margaret Archer, “L’enciclica di Benedetto provoca la teoria sociale”, Vita e Pensiero, n° 5, Milão, setembro-outubro, 2009. 3 “Caritas in veritate e nuovo ordine economico”, Un Mondo possibile, Treviso, setembro de 2009, n° 22, p. 6. 4 Michel Albert, Jean Boissonnat et Michel Camdessus, Notre foi dans le siècle, Arléa, Paris, 2002. |
CASAMENTO GAY
13:31 | Postado por
Jutahy
| Uma vitória do laicismo |
A sanção da lei que modifica o Código Civil argentino para permitir o casamento entre pessoas do mesmo sexo é um passo à frente na secularização da sociedade. Nem todos os fiéis se opuseram, nem foi a religião o único foco de conservadorismo na questão. Os partidos políticos no Congresso votaram divididos |
| por Marta Vassallo |
Impulsionado há cinco anos por organizações de ativistas gays e lésbicas, em especial a Federação Argentina de Lésbicas, Gays, Bissexuais e Trans (FALGBT) e a Comunidade Homossexual Argentina (CHA), o projeto de modificação do Código Civil visando a inclusão de casamentos homossexuais, síntese dos projetos de lei apresentados por Vilma Ibarra, do partido Nuevo Encuentro, e pela ex-legisladora socialista Silvia Augsburger, foi finalmente sancionado na Câmara dos Deputados, no último dia 5 de maio, e no Senado, na madrugada do dia 15 de julho. Uma característica dos projetos de lei que, como este, envolvem uma batalha cultural, é que sua aprovação ou rejeição nas Câmaras não corresponde de forma direta a agrupamentos partidários. As principais forças políticas, o peronismo e o radicalismo, mostraram-se divididas. Na Câmara dos Deputados, o projeto havia sido aprovado por 126 votos favoráveis e 110 contrários, com quatro abstenções: a maioria do dissidente Peronismo Federal posicionou-se contrária; a maior parte da oficialista Frente para la Victoria ficou a favor, e o radicalismo estava dividido, da mesma forma que seus aliados da Coalición Cívica. O projeto recebeu o apoio de um terço dos membros do PRO (Proposta Republicana), a rejeição dos outros dois terços, e a adesão unânime das forças de esquerda do espectro político – Nuevo Encuentro, Proyecto Sur e Partido Socialista. Trata-se de uma reviravolta na esquerda, que tradicionalmente trata de forma secundária a causa homossexual. No Senado, o projeto impôs-se com 33 votos favoráveis e 27 contrários, com três abstenções e nove ausências. Vinte senadores da Frente para la Victoria, dois de seus aliados, cinco senadores radicais, quatro da Coalición Cívica e aliados, um socialista e uma senadora do Peronismo Federal votaram a favor. Sete oficialistas, 11 radicais e dez de outras forças opositoras votaram contra. Entre os ausentes, figuravam ilustres representantes do Peronismo Federal, explicitamente contrários ao projeto, entre eles, os ex-presidentes Carlos Menem e Adolfo Rodríguez Saa, e os ex-governadores Carlos Reuteman e Juan Carlos Romero: estiveram presentes no recinto, mas ausentaram-se no momento da votação. Uma situação similar ocorre com os projetos de lei sobre o aborto, ainda não debatidos no Congresso: as forças de esquerda aceitam-nos sem discussão, a direita rejeita-os com algumas exceções, enquanto os representantes do radicalismo e do peronismo apresentam uma miríade de posições – a rejeição, a aprovação e um amplo espectro de matizes intermediários, em que se rejeita o direito propriamente dito ao aborto, mas aceita-se a possibilidade de esclarecimento e a ampliação das atenuantes de punição a quem o pratica. Nos últimos anos, tem-se registrado uma marcada reviravolta rumo à aceitação da interrupção voluntária da gravidez, quer seja totalmente liberada, quer seja condicionada por determinadas circunstâncias. No debate do Senado, o argumento principal dos opositores ao projeto de modificação do Código Civil pautava-se por uma suposta ordem natural que seria transgredida caso a lei fosse sancionada. A objeção mais frequente ao casamento entre pessoas do mesmo sexo referia-se à possibilidade de adoção, apresentada como um ataque aos direitos da criança. O principal argumento dos defensores do projeto girou em torno da noção de igualdade cidadã e de uma perspectiva laica. Embora as diversas posições apresentassem níveis muito diversificados de fundamentação, os discursos foram, em termos gerais, cuidadosos, não ofensivos, alguns deles bem sustentados juridicamente. Os senadores que aceitavam o projeto insistiam em seu caráter de católicos, sobretudo aqueles que representavam as províncias do Norte; aqueles que se opunham ao projeto esforçavam-se por demonstrar que seu posicionamento era isento de qualquer viés discriminatório. O diabo e o bom Deus Indevidamente chamada pelos meios de comunicação de “lei do casamento gay”, a lei consiste numa modificação na legislação sobre o casamento civil, o que a coloca fora de qualquer concepção sacramental de união e descarta toda imposição a qualquer culto de consagrar casamentos que seus princípios não admitam. A Igreja Católica e seus seguidores responderam com uma estratégia já conhecida da hierarquia eclesiástica: não era um princípio católico o que defendiam, mas sim uma moral natural e universal. É a argumentação do editorial do La Nación de 12 de julho: “Não foi a religião, mas a natureza, que introduziu no sistema de valores de inúmeras civilizações a ideia de que o casamento legislado pela lei tem que ser entre um homem e uma mulher…”. No entanto, e seguramente porque o debate desta lei no Senado era decisivo, a jornada do dia 14 de julho viu-se precedida por uma virulenta campanha conduzida pela Conferência Episcopal Argentina (CEA), à qual se somaram setores dos cultos evangélico, judeu e muçulmano. Nessa campanha, evidenciou-se de maneira inequívoca a vontade de submeter a organização da vida social às exigências de uma fé: “Está em jogo uma rejeição frontal à lei de Deus… a cobiça do demônio… astutamente quer destruir a imagem de Deus: o homem e a mulher que recebem a incumbência de crescer, de se multiplicar e de dominar a Terra… Não se trata de um mero projeto legislativo… mas sim de uma querela empreendida pelo mestre do engodo que pretende confundir e enganar os filhos de Deus”, escreveu o arcebispo de Buenos Aires, Jorge Bergoglio, numa carta às freiras carmelitas de sua arquidiocese, no dia 22 de junho, que conclui desta forma: “Miremo-nos no exemplo de São José, Maria e o Menino… que eles nos socorram, nos defendam e nos acompanhem nesta guerra de Deus…”. O tom do arcebispo de Buenos Aires mudou notavelmente na declaração enviada à manifestação em defesa da família que, convocada pela Comissão Episcopal de Leigos da CEA, e tendo como lema “Queremos um pai e uma mãe”, foi realizada em frente ao Congresso, no dia 13 de julho: Bergoglio instava os manifestantes a não incorrerem em expressões de “agressividade e violência” – nas quais ele mesmo já havia incorrido –, e a rejeição à homossexualidade dissimulou-se na noção de “aceitação das diferenças” como base para a defesa da família tradicional. “A essência do ser humano tende à união do homem e da mulher… como o caminho natural para a procriação… o casamento precede o Estado, é a base da família, célula da sociedade, anterior a toda legislação e anterior à própria Igreja…”, dizia. Mas tal “naturalização” não era suficiente para fazer esquecer a declaração de guerra santa e as referências ao demônio. Outras vozes na Igreja Uma questão que este episódio deixou evidente é a dinâmica interna dos cultos, em virtude da qual há setores que divergem dos critérios de sua autoridade. No caso da Igreja Católica, isso ficou claramente ilustrado pelo posicionamento dissidente de 15 sacerdotes cordobeses do grupo Sacerdotes do Terceiro Mundo Enrique Angelelli, encabeçados pelo padre de San Cayetano, Nicolás Alessio. Este foi ameaçado imediatamente com um julgamento canônico e a proibição de celebrar missa por parte do arcebispo de Córdoba, Carlos Ñañez. Os sacerdotes da Opção pelos Pobres da diocese de Quilmes, cujo expoente é o padre Eduardo de la Serna, solidarizaram-se de imediato com Alessio e seu grupo. Eduardo de la Serna insistiu, em diversos meios de comunicação, na contradição existente entre o permanente convite ao diálogo do Episcopado e seu posicionamento contra os direitos dos gays e lésbicas, e advogou por uma leitura não literal, não fundamentalista, da Bíblia. “É possível querer condicionar a ação de nossos legisladores em sua atividade parlamentar com concepções próprias da cristandade medieval, esquecendo sua legítima liberdade de consciência em temas tão controversos?” é uma das perguntas formuladas por um documento dos sacerdotes de Quilmes. O padre Nicolás Alessio reiterou, diante das câmeras de televisão, que no Novo Testamento não há qualquer menção à homossexualidade, mas em contrapartida existe uma clara condenação de Cristo àqueles que se apresentam como puros, e uma defesa “dos proscritos, dos esquecidos, dos últimos”. Nas considerações do sacerdote De la Serna, e de modo alusivo em algumas das declarações dos senadores, assinalou-se que a excomunhão com que a Igreja ameaça Alessio nunca foi cogitada contra o sacerdote Christian von Wernich, culpado por crimes de lesa-humanidade, nem contra o ex-arcebispo de Santa Fé, Edgardo Storni, condenado no dia 30 de dezembro de 2009 a oito anos de prisão por abuso sexual de seminaristas, agravado por sua condição de sacerdote. Em sua renúncia a João Paulo II, Storni declarou-se inocente das acusações; obteve sua aposentadoria – que beira 6.500 pesos (R$ 2.900,00) e é paga pelo Estado – e retirou-se para La Falda, nas serras cordobesas. Como tem mais de 70 anos, cumprirá sua pena em prisão domiciliar. A Igreja também não agiu contra o padre Julio César Grassi, que está em liberdade apesar de, em 10 de junho de 2009, ter sido condenado a 15 anos de prisão por abuso sexual qualificado e corrupção de menores em duas das 17 ações que correm contra ele envolvendo adolescentes da Fundación Felices los Niños, que Grassi presidia desde que a fundou, em 1993. Num país onde a maioria da população carcerária encontra-se em prisão preventiva à espera do julgamento de seu processo, o tribunal de justiça decidiu que o condenado Grassi permanecerá em liberdade até a sentença definitiva. Embora seja uma tradição forte dentro do cristianismo, é notável como desde o pontificado de João Paulo II, iniciado em 1978, a Igreja Católica vem se concentrando exasperadamente numa moral que somente legitima as relações sexuais voltadas à procriação (um claro retrocesso com relação ao valor da sexualidade no casamento, admitida no Concílio Vaticano Segundo), e que tornou o aborto, quaisquer que sejam as circunstâncias do mesmo, equivalente ao genocídio. O paradoxo é que o Vaticano faz essa redução da moral a uma forma determinada de exercício da sexualidade, num período em que a família tradicional, sob a autoridade masculina, dissolveu-se por múltiplas razões: as noções de maternidade e paternidade transformam-se, entre outras coisas, por meio de tecnologias que dissociam definitivamente a reprodução do exercício da sexualidade. Mas, além disso, o Vaticano atua desta maneira num momento de particular e grave descrédito mundial, devido à avalanche de denúncias que, desde o final do século XX, se abate sobre os membros do clero católico por abusos sexuais contra crianças, adolescentes e jovens seminaristas sob seus cuidados. Trata-se de milhares de casos em quase todo o mundo. As denúncias são de dupla natureza: por um lado, os próprios abusos, por outro, seu acobertamento por parte da hierarquia eclesiástica. Os abusos têm responsáveis individuais. O acobertamento é uma responsabilidade institucional que converte em cúmplices os membros da hierarquia, embora estes não estejam, em absoluto, envolvidos nessas condutas como indivíduos. O próprio papa Bento XVI foi acusado de acobertamento, devido ao papel que desempenhou, desde o pontificado de João Paulo II, como responsável pela Congregação da Doutrina da Fé (a antiga Santa Inquisição). Alguns casos pontuais, na Califórnia, Wisconsin, Arizona e Munique, dão conta de que Joseph Ratzinger levou anos para afastar de suas funções os sacerdotes acusados de abusos sexuais contra menores, apesar da insistência dos respectivos bispos locais nesse sentido. No último dia 6 de abril, o diário alemão Der Spiegel publicou uma nota bombástica com o título: “O pontificado falido de Bento XVI”, em que pedia a renúncia do papa. No lugar de admitir que foi o desenvolvimento da cultura dos direitos humanos – e, dentro dela, a dos direitos da criança – que possibilitou estas denúncias desde o final do século XX, a hierarquia eclesiástica refere-se aos abusos sexuais por membros do clero como se se tratasse de uma novidade própria do final do século XX, consequência indesejável dentro da Igreja da influência do Concílio Vaticano Segundo, por um lado, e, por outro, das correntes secularizadoras que transformaram muitas sociedades nesse período. Não admite que, de fato, esta é uma prática arraigada durante séculos e protegida pela cultura do segredo, própria do Vaticano ao longo de toda a sua história. Por exemplo, a secularização da Irlanda nos últimos anos permitiu a divulgação, em 2009, dos relatórios Ryan e Murphy, sobre abusos cometidos por clérigos católicos em orfanatos, reformatórios e albergues irlandeses para meninas, meninos e adolescentes, impossibilitados de qualquer denúncia, com a cumplicidade da Justiça e da polícia irlandesas, no decorrer do século XX. O papa insinuou que é a influência do Concílio Vaticano Segundo e a secularização da Irlanda que estão na raiz do acobertamento clerical: “Nas últimas décadas, a Igreja no país de vocês viu-se diante de novos e graves desafios para a fé, devido à rápida transformação e secularização da sociedade irlandesa. O programa de renovação proposto pelo Concílio Vaticano Segundo foi mal interpretado, às vezes; e houve, em particular, uma tendência (…) a evitar enfoques penais das situações canonicamente irregulares…”1. Talvez o descrédito da Igreja no mundo, unido à inoportuna violência com que o arcebispo Bergoglio abordou o debate no Senado, tenha influído na capacidade da direção política e da sociedade para discernir com clareza e evitar que qualquer consideração referida a uma fé religiosa impedisse a confirmação de um dispositivo legal civil que reconhece direitos de uma minoria importante. Igreja e governo Com seu impulso a esta iniciativa parlamentar, o governo de Cristina Kirchner deu um importante passo rumo à secularização da sociedade e somou mais um ponto de atrito às suas já deterioradas relações com a Igreja, abaladas pela lei de educação sexual e a continuidade dos julgamentos dos militares e policiais envolvidos na repressão ilegal. No último dia 25 de maio, para não ter que ouvir as repreensões do arcebispo Bergoglio, na catedral de Buenos Aires, a presidente compareceu às solenidades religiosas na municipalidade de Tucumán. No dia 9 de julho, porém, não esteve presente em nenhuma liturgia: isso teria significado ouvir a crítica virulenta do bispo de Tucumán, Héctor Luis Villalba, contra o projeto de lei de modificação do Código Civil. É difícil saber se o avanço que constitui a sanção da nova lei de casamento civil abre caminho para outra grande batalha cultural pendente, a do direito ao aborto, ou se o governo e a direção política avaliarão que, no que se refere a enfrentamentos, para este ano já basta. Marta Vassallo é jornalista. 1 Carta pastoral de Bento XVI aos católicos da Irlanda, 19 de março de 2010. Texto cedido pela edição argentina de Le Monde Diplomatique. |
Em torno do Mar Negro
13:30 | Postado por
Jutahy
| Sociedade / Cáucaso |
| Em torno do Mar Negro |
Fechado, fortemente afetado pela poluição, às vezes tido como um espaço “marginal”, o Mar Negro está no coração da redefinição de entraves estratégicos maiores. Nesse diário de viagem, é possível entender o mosaico de países, interesses e histórias que compõem a diversidade dessa região |
| por Jean-Arnault Dérens , Laurent Geslin |
| SINOPSE, Turquia No dia 1° de maio de 2010, enquanto os sindicatos juntavam suas tropas na Praça Atatürk, os barcos pesqueiros do Porto de Sinope mostravam-se a favor da mobilização antinuclear: “Sinop nukleer istemiyor!”- “Sinope não quer central nuclear!”. Nessa pequena cidade do litoral turco do Mar Negro, o projeto cristaliza a cólera dos habitantes, enquanto a costa que se estende de Istambul a Sinope continua selvagem e preservada. A porção que vai de Sinope até a fronteira com a Geórgia, com aproximadamente 600 km, foi completamente cimentada. Uma autoestrada priva as cidades de qualquer acesso à costa e várias delas têm centenas de imóveis inacabados, que abrigam uma população chegada recentemente das montanhas na esperança de alcançar melhores condições de vida. Em alguns pontos, a autoestrada foi construída sobre aterros hoje ameaçados pela erosão. Para tentar prevenir o fenômeno, foram feitos diques de cimento a alguns quilômetros uns dos outros. O remédio é talvez pior que a doença, pois eles bloqueiam as correntes, retêm os sedimentos e transferem o problema para alguns metros adiante. Às vezes, os barcos de pesca ficam atracados ao abrigo desses diques, mas é somente atravessando a autoestrada que se tem acesso a esses novos portos, que não oferecem nenhum serviço e onde muitos barcos parecem estar abandonados. A pesca em outros tempos lucrativa no Mar Negro está ameaçada pelo esgotamento dos recursos haliêuticos. A Rússia impôs à Turquia uma limitação estrita das zonas de pesca. As águas do Mar Negro estão particularmente ameaçadas pela eutrofização, ou seja, uma quantidade altíssima de material orgânico, especialmente de algas. Esse fenômeno é a consequência direta do excesso de nutrientes jogados no mar, como o azoto e o fósforo produzidos pela exploração agrícola. A eutrofização “sufoca” o mar, rarefazendo a circulação de oxigênio; um fenômeno amplificado no Mar Negro, um mar relativamente pouco salgado, porque as águas são provenientes de grandes rios, que nele desembocam, como o Dniester ou o Danúbio. Várias organizações intergovernamentais, como a Comissão pela proteção do Mar Negro contra a poluição, alertam há anos sobre o problema; mas, desprovidas de competências operacionais, elas podem apenas fazer recomendações1. Porém, a proteção ambiental não faz parte das prioridades desses países do entorno. Depois de ter cimentado a costa, o governo turco mudou o foco para o desenvolvimento da produção elétrica. Os projetos de barragens multiplicam-se desde a privatização do mercado de energia, há mais ou menos 15 anos, e puseram fim ao monopólio do Turkiye Elektrik Kurumu, empresa nacional. O Estado contenta-se em interpretar um papel de regulador do mercado por meio da sua agência EPDK e cede os rios às empresas privadas em concessões por 49 anos. No total, nada menos do que 1.300 estudos para a construção de barragens teriam sido feitos em todo o país, dos quais 600 na região do Mar Negro. “A mobilização permitiu adiar, por enquanto, um projeto de central hidrelétrica no nosso vale. Essa barragem teria coberto 0,14% das necessidades energéticas do país, enquanto estimamos as perdas ligadas ao transporte da eletricidade em mais de 30% sobre o total da rede”, explica Selco Günay, proprietário de um pequeno hotel no Vale de Firtina e porta-voz da plataforma ecologista da região. Samsun, Turquia “Há seis gerações, os Tcherkesses não comem peixe. Nossos ancestrais povoavam toda a atual costa russa, de Novorossiisk a Sochi. Desde o início do século XIX, a Rússia czarista lutou para conquistar a Circássia2. E só parou em 1864, com o esmagamento das tribos tcherkesses na batalha de Kbaada. Os sobreviventes não tiveram outra escolha, além de fugir para o Império Otomano. Eles foram encurralados próximo às costas, esperando pelos navios que deveriam levá-los3. Muitos morreram de malária e de outras doenças adquiridas nas regiões insalubres; outros, durante o trajeto. Os corpos eram jogados na água. É por isso que rejeitamos sempre comer peixes”, lança Othan Dögbay, que preside a associação dos Tcherkesses, de Samsun. Esses últimos chegaram à Turquia depois da conquista russa das margens setentrionais do Mar Negro. Uma grande causa mobiliza os Tcherkesses da Turquia, que compõem o total de 4 a 5 milhões de pessoas: a oposição aos Jogos Olímpicos de Inverno, que serão realizados em Sochi, em 2014. De fato, o local principal desses jogos serão as montanhas que ficam bem acima das cidades, na estação de esqui de Krasnaia Poliana, que corresponde ao local da batalha de Kbaada. “Na Rússia, ‘Krasnaia Poliana’ significa “o bosque vermelho”, e os russos dizem que esse nome vem da cor das samambaias que lá crescem. Mas nós sabemos que esse lugar ficou avermelhado por conta do sangue dos nossos ancestrais”, enfatiza Dögbay. As organizações tcherkesses pediram embargo ao Comitê Olímpico Internacional, sem obter resposta satisfatória. Elas exigem o reconhecimento do “genocídio tcherkesse”. No início de abril, uma delegação do congresso mundial tcherkesse, baseada nos Estados Unidos, encontrou parlamentares georgianos. Com o governo de Mikheïl Saakachvili utilizando todos os meios para se opor a Moscou, a Geórgia pode ser o primeiro país no mundo a reconhecer oficialmente esse “genocídio”. Trabzon, Turquia Ao longo de todo o século XX, a costa do Mar Negro também viu intensas misturas de populações. Os gregos “pontiques”4 praticamente desapareceram das margens turcas desde os acordos de Lausanne (1923), que previram a troca de populações entre a Grécia e a Turquia. Trabzon, antiga Trebizonde grega, representa o centro do nacionalismo turco. Desta cidade veio o presumido assassino do jornalista armênio Hrant Dink, morto em Istambul no dia 19 de janeiro de 20075. Gültekin Yücesan anima o comitê local de defesa dos direitos da pessoa, sempre se proclamando “revolucionário luxemburguista”, em referência à alemã Rosa Luxemburgo. Durante uma noite longa, ele nos explica que a armada e os diferentes serviços secretos fazem de Trabzon sempre um símbolo: “De onde viemos, a tradição militar kemalista6 não está morta”. Portanto, a cidade é igualmente marcada por uma prática do islã cada vez mais ostentatória e rigorosa. É necessário descer nos bairros do porto para encontrar bares que servem abertamente bebidas alcoólicas, enquanto mulheres jovens se insinuam aos marinheiros que passam. É verdade que a clientela visada é mais russa do que turca. Todo dia os barcos de travessia ligam Trabzon a Sochi, na Rússia. A qualidade do transporte é ruim e os horários são incertos, mas uma multidão atarefada apressa-se para embarcar. Entre os companheiros de viagem, há mulheres russas “sacoleiras”, que levam ao país algumas malas de roupas ou artigos facilmente revendíveis; trabalhadores georgianos emigrados na Rússia, que devem passar pela Turquia, já que todas as ligações diretas entre seu país e a Rússia foram interrompidas desde a guerra de 2008; há também muitos caucasianos. Sokhumi, Abkházia Essa carga particular não impede os passageiros de desembarcarem em Sochi, onde os preparativos para os Jogos estão bem adiantados. Está sendo construída uma autoestrada que vai ligar a futura cidade olímpica de Adler, na costa, à Krasnaia Poliana. A pequena estação balneária de Adler se situa na fronteira da Abkházia separatista. “Nós esperamos, certamente, o retorno econômico dos Jogos” assegura, com um sorriso, Viatcheslav Chilikba, conselheiro do presidente abkhaze. A Abkházia, antiga “pérola” do rio soviético, que se separou da Geórgia, em 1994, depois de terríveis combates que deixaram mais de 8 mil mortos, proclamou sua independência após a guerra de agosto de 2008 entre a armada georgiana e as forças russas7. Os abkhazes representariam hoje 45% dos 250 mil habitantes da pequena república onde vivem igualmente os armênios, os russos e os gregos pontiques. A maioria dos 250 mil georgianos fugiu da Abkházia ou foi expulsa depois da guerra de 1994. Um retorno não parece possível. “Se os refugiados voltarem, haverá nova guerra. A maior parte deles tem sangue nas mãos.”, martela o presidente Sergeï Bagaptch. A Abkházia8 é ainda atingida por um embargo proclamado pela Geórgia e aplicado por quase todos os países da comunidade internacional. O porto da capital, Sukhumi, que tem no alto uma imensa bandeira Abkházia e que domina o Mar Negro, acolhe regularmente cargueiros provenientes de Trabzon. Esses navios vão supostamente para Batumi, na Geórgia, mas saem da rota para vir descarregar na Abkházia. Os habitantes da capital frequentam cafés em frente ao mar, onde os turistas ainda são poucos, mesmo com os grandes investimentos de Moscou. Sukhumi defende-se de ser um peão da Rússia. “Nós acolhemos duas bases militares russas, ou seja, 10 mil homens para assegurar a proteção dos nossos cidadãos ante as forças georgianas, e, pela primeira vez desde 1994, podemos dormir em paz”, justifica-se Bagaptch. O tom se endurece: “Se a Abkházia é um protetorado russo, a Geórgia não seria um protetorado americano? E por que o Kosovo seria reconhecido como um país independente, e não a Abkházia?” Em torno da capital, a vida retoma pouco a pouco seu rumo. Os imóveis são habitados mesmo se ameaçados de ruína. Alguns cafés e pequenos comércios surgem em todos os lugares. Na baía de Sokhumi, os prédios da universidade do Estado Abkhze mostram suas sequelas da guerra, mas quase 10 mil estudantes se apresentam. Gudisa Tskalia, de 20 anos, estudante de relações internacionais, sonha em tornar-se diplomata e representar seu país no exterior. Por enquanto, seu país é representado apenas pela Rússia, Nicarágua, Venezuela e a Ilha de Nauru – assim como para o pequeno “clube” das outra repúblicas não reconhecidas, a Transdnístria, a Ossétia do Sul ou a República Turca do Chipre do Norte. As negociações efetuadas com a Geórgia sob a proteção das Nações Unidas estão em ponto morto. A Abkházia obteve, em junho de 2009, o fim da missão da ONU e fechou seu território aos observadores militares europeus. Batumi, Geórgia A “fronteira entre a Abkházia e a Geórgia passa pela ponte sobre o rio Inguri, reservada aos pedestres. Cruzamos uma multidão de georgianos residentes na Abkházia que se apressa para fazer compras na cidade georgiana de Zugdidi, do outro lado do rio. A passagem fica submetida à boa vontade das milícias abkhazes e dos policiais georgianos. Incidentes surgem regularmente na zona fronteiriça. Em 8 de junho último, um guarda de fronteira abkhaze foi morto. A Geórgia não espera outro cenário que a reconquista militar da Abkházia. Desde a Revolução das Rosas, que o levou ao poder em 23 de novembro de 2003, Saakachvili não para de querer reintegrar ao Estado da Geórgia as entidades separatistas da Adjaria, da Abkházia e da Ossétia do Sul. Seu único sucesso foi com a Adjaria. O governo muito pró-ocidental de Tbilisi quer fazer da Geórgia uma vitrine atraente. Pessoas próximas ao presidente tomaram todas as alavancas de comando importantes, e o Estado investiu sem parar em Batumi. Na antiga estação balneária com charme antiquado, luxuosos hotéis saem do chão. Um Sheraton de 24 andares abriu suas portas em 1° de abril. Vários outros prédios estão em construção: um Hyatt, um Hilton, um Radisson... Desde a guerra de 2008, quase todos os turistas abandonaram Batumi, mas a cidade conta com os turcos atraídos pelos cassinos, que são proibidos na Turquia e que aqui são mais numerosos do que os hotéis. O porto de comércio, muito próximo da vila velha, também está sendo completamente renovado. Ele foi cedido em concessão por 49 anos a uma holding cazaque de petróleo, a KasTransOil. O tráfego anual elevou-se, em 2009, para 7 milhões de toneladas de petróleo, enviadas por via férrea na direção de Batumi, desde o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Turcomenistão. O escritório do diretor do porto é decorado com o retrato de dois presidentes: Saakachvili e seu homólogo cazaque, Noursoultan Nazarbaïev. Zourab Shoulgaïa foi diplomata soviético durante 22 anos, efetuando o essencial de sua carreira em países árabes, onde ele era responsável pela cooperação econômica. Em seguida, foi embaixador da Geórgia no Cazaquistão. Ele reconhece que foram as autoridades cazaques que lhe pediram para deixar a diplomacia e tomar a direção do porto de Batumi. Muito ligado à Rússia, o Cazaquistão investe massivamente na Geórgia. Entre os conhecedores do dossiê, duas teorias opõem-se: as empresas cazaques poderiam servir de fachada para os capitais russos; a menos que, ao contrário, o Cazaquistão procure novos mercados para sair de uma relação econômica muito exclusiva com a Rússia. Shoulgaïa, sempre reconhecendo a perda por causa da quase ruptura das relações entre a Geórgia e a Rússia, vê-se otimista: “Todas as guerras têm um fim”, ele assegura. Poti, Geórgia Por volta de 50 km ao norte de Batumi está o Porto de Poti, bombardeado intensamente pela marinha russa do Mar Negro, no conflito de 2008, e que foi cedido igualmente em concessão por 49 anos ao Emirado de Ras-al-Khaimah. A reconstrução vai bem, e Poti foi convidado a se tornar o principal porto de entrada marítima na direção do Cáucaso e da Ásia Central. Maxim Shonin, responsável por uma associação de portos do Mar Negro, baseada em Odessa, na Ucrânia, ressalta a importância do desenvolvimento da relação entre Poti e o porto búlgaro de Varna. A intensificação das trocas entre os rios a leste e oeste do Mar Negro inscreve-se no contexto do Corredor de Transporte Europa-Cáucaso-Ásia (Traceca). Definido em 1998, reúne a União Europeia e 14 estados da região9. Nisso está em jogo não somente o envio de hidrocarburantes do mar Cáspio e da Ásia Central, mas também o acesso à Ásia Menor. O Porto de Poti dá acesso à Armênia e por esse canal é fácil alcançar o Irã. Uma forte rivalidade se opõe os portos de Odessa e Varna. O desenvolvimento atual das relações econômicas tende igualmente a marginalizar a Ucrânia, em pleno realinhamento com Moscou desde a vitória de Viktor Ianoukovitch na eleição presidencial de 7 de fevereiro de 2010. No entanto, a situação continua indefinida e o eixo Poti-Varna segue marginal em relação às trocas entre a Rússia e a Turquia. Shonin estima que “perto de 80% dos barcos que passam pelos estreitos de Bósforo e Dardanelos são russos ou se dirigem em direção à Rússia”. Sebastopol, Ucrânia Sebastopol há muito tempo cristalizou as tensões entre a Ucrânia e a Rússia. Na época soviética, a cidade tinha um estatuto especial, sem pertencer à República autônoma da Crimeia religada à Ucrânia. Depois da independência ucraniana, em 1991, a Rússia recusou ainda por muito tempo reconhecer a soberania de Kiev sobre a cidade, que conservava o status de “cidade fechada”: Era necessário um direito de passagem especial para entrar nela. Um acordo foi concluído em 1997: Moscou não contesta mais os direitos da Ucrânia sobre Sebastopol. Mas aluga portos para sua marinha sobre o Mar Negro. O contrato de aluguel foi prolongado, em abril último, por Ianoukovitch, e o prazo vai até 2042. Os militares russos seriam aproximadamente 20 mil em Sebastopol, onde eles vivem frequentemente com as suas famílias. Na enseada de Sebastopol, ao lado da imensa estatua de Lênin, encontra-se o imóvel do serviço hidrográfico da marinha russa. A pintura está um pouco passada e a decoração patriótica não mudou desde a época soviética, mas Evgeni Georgievitch nos acolhe com um grande sorriso e um franco aperto de mão. “A marinha do Mar Negro vive sob vigília”, assegura esse oficial russo de nacionalidade ucraniana. De fato, no conflito de agosto de 2008, foi de Sebastopol que partiram aqueles que esmagaram a frota georgiana no Porto de Poti. Encostado no parapeito do mirante da cidade, Andreï Chobolev olha esse porto que ele conhece tão bem. Proprietário do jornal Sevastopolskaia Gazeta, o homem é também um cancionista muito apreciado em Sebastopol. “Para muitos habitantes, Sebastopol é antes de tudo a cidade que resistiu aos nazistas durante a guerra, o orgulho da União Soviética. Sebastopol não pode pertencer à Ucrânia, mas a cidade não é tão pouco verdadeiramente russa. É um porto, um mundo em si mesmo, uma cidade definitivamente à parte.” Chobolev começa a sonhar alto para que Sebastopol, cidade de guerra, se transforme numa cidade de paz, que se beneficiaria de algum tipo de extraterritorialidade. Continuando sempre a abrigar a marinha russa do Mar Negro, pois todos sabem que a Rússia não pode nem sonhar em abandonar sua “cidadela no Mar Negro”, sobretudo depois que a OTAN reforçou suas bases na Bulgária e na Romênia. Jean-Arnault Dérens redator-chefe do Courrier des Balkans. e jornalista do Correio dos BálcãsLaurent Geslin 1 Ler “La région du Danube et de la Mer Noire”, Europa.eu, junho de 2005. 2 Antiga região do Cáucaso, com uma população essencialmente muçulmana. 3 Ler Alexandre Grigoriantz, Les Caucasiens. Aux origines d`une guerre sans fin, Gollion, Infolio, 2006. 4 Este termo provém da denominação grega do Mar Negro, Pont Euxin. Sobraram ainda importantes comunidades pontiques na Rússia e na Crimeia, mesmo se muitos gregos da antiga URSS foram para a Grécia, desde o início dos anos 1990. 5 Hrant Dink foi o fundador do jornal bilíngue Agos e um dos intelectuais mais influentes da comunidade Armênia na Turquia. 6 Ideologia herdada de Mustafá Kemal Atatürk (1881-1938), fundador da república turca, que insiste sobre a laiciedade e o nacionalismo. 7 Ler Vicken Cheterian, “Cinq jours qui ont fait trembler le Caucase”, Le Monde Diplomatique, fevereiro de 2009. 8 Ler Leon Colm, Improbable Abkhazie. Récits d’un Etat-fiction, Autrement, Paris, 2009; Jean-Radvanyi e Nicolas Beroutchachvili, Atlas Géopolitique du Caucase, Autrement, Paris, 2010. 9 Ler Jean Radvanyi, “Transports et Géostratégie au sud de la Russie”, Le Monde Diplomatique, junho 2008. |
MUNDO ÁRABE
13:29 | Postado por
Jutahy
| O abismo entre arte e política |
Uma forma de esquizofrenia toma conta da região: na esfera privada ou nos espaços semipúblicos consome-se a cultura profana. Nos públicos, as pessoas se mostram preocupadas em exibir sua identidade muçulmana, evitando, por exemplo, ir ao cinema, e vão à mesquita, de barba ou usando um véu |
| por Hicham Ben Abdallah El Alaoui |
| No decorrer dos dois últimos séculos, os ulemás (sábios) sempre desconfiaram das formas modernas de expressão cultural, temendo que elas permitissem às pessoas compreender sua vida e o mundo segundo modalidades externas à religião. Mas eles protestaram em vão: a maioria das práticas artísticas e culturais não foram menos aceitas por isso. Algumas produções (a pintura moderna, por exemplo) trazem a marca do Ocidente, mas só interessam aos efêndis, como são chamados os burgueses ocidentalizados. Essa tolerância prudente pertence a uma vertente do pensamento teológico (kalam) no qual a religião não se limita à lei religiosa (charia), mas também acolhe certo pluralismo. Manifestações literárias e artísticas mais ou menos profanas (poesia, caligrafia, artes plásticas e música) eram consideradas compatíveis com a religião, mesmo quando se chocavam com as convenções. Obras de formidável diversidade, e uma criatividade muitas vezes audaciosa, são partes integrantes de nossa história. A grandeza do Islã reside precisamente em sua capacidade em absorver uma miríade de influências culturais. O mundo muçulmano protegia, estudava e desenvolvia as grandes tradições da literatura e da filosofia clássicas. Em vez de queimar livros, construía bibliotecas para preservá-los. Foi, por muito tempo, um santuário para os documentos fundadores do que mais tarde se chamaria Ocidente. O Islã havia compreendido que essa herança representava o patrimônio intelectual de toda a humanidade. Com o surgimento dos movimentos fundamentalistas, um novo padrão apareceu: o chamado “salafista”, em referência à visão estreita da ortodoxia religiosa sobre a qual ele se baseia. O fato de se tratar de uma ideologia implícita, pois raramente é prescrita por lei ou pelo Estado, não diminui em nada seu poder. Muito pelo contrário, esse padrão obtém sua autoridade não de um poder público, mas da posição central que atualmente ocupa a versão rigorosa do Islã na identidade árabe: ele encarna a resistência à ocidentalização e ao neocolonialismo. Há algumas décadas, essa forma de religiosidade vem se chocando com um nacionalismo árabe triunfante. Hoje em dia, mesmo as vozes “seculares” moderadas hesitam em contestá-la abertamente: presas na armadilha identitária, elas temem passar por conservadoras aos olhos do regime, e como inimigos da autenticidade árabe, pela população. Um exemplo marcante foi o grupo de jovens marroquinos que, no verão de 2009, quis romper o jejum do Ramadã e fez um piquenique em um jardim público. Além da previsível indignação dos religiosos, a iniciativa desencadeou a ira da União Socialista das Forças Populares (USFP), principal formação social-democrata do país, que pediu sanções contra aqueles que não respeitaram o jejum. Essa “religiosidade” de esquerda expressava-se em uma linguagem emprestada do nacionalismo, e o piquenique foi considerado um insulto para a cultura marroquina, além de perigoso para o consenso identitário. Como as autoridades decidiram acusar os jovens de “perturbar a ordem pública”, um motivo raramente invocado, a lei secular serviu aqui de abrigo para um apelo à ordem religiosa. A classe política, como um todo, não podia admitir o menor desrespeito aos preceitos corânicos. Peso da religião O espaço público foi, assim, progressivamente enquadrado em um padrão cultural rígido, composto por obrigações e proibições provenientes de uma leitura estrita dos textos religiosos. Após se tornar elemento central da ideologia dominante, a religião tende a se reduzir à sua versão salafista e a instaurar uma lógica segundo a qual a cultura, até então profana, se torne ímpia. Assim, a concepção aberta de um Islã associado à cultura foi substituída por uma interpretação obtusa da charia, que exclui a cultura. Os pontos de passagem entre a esfera sagrada da religião e o espaço cultural profano foram, a partir daí, bloqueados. Esta dinâmica de “salafização” não impede que a população experimente uma profusão de produtos culturais divulgados via televisão, vídeo, internet ou pela literatura popular. É muito tentador limitar essa efervescência ao Ocidente e à globalização, descrevendo-a como “estrangeira”. Mas isso significaria ignorar a engenhosidade com a qual os árabes se apropriaram de toda a gama de produção cultural contemporânea. Do lado das elites, assistimos a um entusiasmo crescente pela arte moderna, promovido por um sistema de mecenato para o qual contribuem fundações ocidentais, organizações não governamentais (ONGs) e monarquias do Golfo Pérsico. Por seu lado, o povo não escapa da onda das multinacionais do lazer e das mídias. À propagação dos modelos norte-americanos se soma a difusão maciça de produtos culturais locais – seja dos canais de informação Al-Jazeera e Al-Arabiya, das séries de televisão ou da literatura popular, em particular dos manuais de conselhos práticos ou da vida amorosa –, como também uma explosão de criatividade musical e artística, possível graças à internet, e acompanhada com entusiasmo pelos jovens árabes. Tal combinação traz também uma versão comercial e “festiva” da cultura árabe moderna, um fenômeno cujo alcance se deve muito aos homens de negócios, promotores e intermediários locais. A maioria dessas práticas culturais é desprovida de conteúdo religioso. Saturadas de influências globalizadas – e não apenas ocidentais, mas também indianas, latino-americanas etc. –, elas apresentam um caráter completamente laico. Apesar do crescimento do Islã político, as tentativas visando islamizar a arte e a cultura permanecem relativamente infrutíferas. Entretanto, submissos às exigências contraditórias de uma cultura globalizada e da norma religiosa, artistas e produtores colocam voluntariamente à frente sua qualidade de “muçulmanos”, mesmo que suas obras não tenham nada a ver com a religião e convirjam para a secularização das sociedades. Prevalecendo-se desse pertencimento, afirmam uma identidade, não uma prática religiosa. Contradições evidentesUma forma de esquizofrenia toma conta da região: na esfera privada e nos espaços semipúblicos consome-se a cultura profana. Nos públicos, as pessoas se mostram preocupadas em exibir sua identidade muçulmana, evitando, por exemplo, ir ao cinema; e vão à mesquita de barba ou usando um véu. Seria um engano explicar esse fenômeno por meio da divisão social entre elites e camadas populares. No século passado, a burguesia ocidentalizada podia certamente gozar de todo o conjunto da cultura profana enquanto o povo ficava relegado a uma cultura tradicional dominada pelo Islã. Essa divisão não desapareceu. Mas, há cerca de 20 anos o progresso da educação e da alfabetização, conjugadas ao crescimento excepcional dos meios de comunicação – entre os quais, e principalmente, a televisão e a internet –, mudaram o cenário. O conhecimento de outras línguas e culturas não é mais privilégio dos ricos. Uma gama cada vez mais variada de manifestações culturais tem surgido. Os jovens leem romances, veem filmes, analisam documentos, escutam música, consultam blogs, e muitas vezes em outras línguas que não o árabe. Não consomem apenas produtos, eles controlam práticas culturais intrinsecamente marcadas pelas influências do resto do mundo. A diversificação da cultura de massa não gerará, mecanicamente, um processo de secularização e de democratização. De fato, o mesmo indivíduo que lê um romance de amor, hoje, estará amanhã com um folheto religioso nas mãos; ele almoçará diante da Iqraa TV, o canal via satélite consagrado ao Islã, e acabará seu jantar diante de um clip da Rotana, a “MTV árabe”1. Essa contradição não poupa nem mesmo a língua, parte essencial da cultura. Historicamente, os ulemás sempre celebraram a escrita como a expressão mais elevada do espírito humano. Entretanto, a literatura arabófona ocupa um lugar marginal. Um intelectual não escreve na língua oral de seu povo, já que nacionalistas e fundamentalistas só admitem o árabe clássico, o do Corão (fosha), como meio de expressão cultural. Para uns, o fosha cimenta a nação árabe; para outros, ele representa o elo do mundo muçulmano (oumma). Essa concepção não leva em conta, evidentemente, as diferenças entre o árabe clássico, raramente falado fora das escolas corânicas, e o das ruas, ou até o árabe “padrão” usado nas mídias, nos discursos públicos e nas ficções populares. Para os escritores, a tarefa se revela ainda mais difícil, pois o romance representa um gênero suspeito, na medida em que ele explora as questões existenciais de maneira duplamente transgressiva: ao se liberar da religião e ao levar a língua árabe para além dos limites da fosha. Ao aceitar a salafização das normas sociais em matéria de costumes e de comportamento (pressões a favor do uso do véu, fechamento de cinemas etc.), o Estado árabe moderno consolida sua política de aliança tácita com os ulemás, guardiões oficiais do Islã, que se mostram mais preocupados em obter os favores do regime do que em reformá-lo. O Estado pode aceitar as correntes islamistas “moderadas”, cujo programa consiste, sobretudo, em imobilizar as ideologias religiosas para fazer com que prevaleça a piedade no seio das comunidades: sua ação consegue proibir as disposições mais extremas da charia (por exemplo, o apedrejamento de mulheres e homens adúlteros). Isso lhe permite, junto com moderados do interior e observadores ocidentais, se proteger contra uma islamização completa, mas acaba por confirmar a primazia do salafismo como norma social. Ao mesmo tempo, os intelectuais fiéis às reformas democráticas procuram proteção junto ao Estado contra os ulemás e fundamentalistas. Em troca, consentem, às vezes, em apoiar seus dirigentes. Aos seus olhos, mesmo um governo muito autoritário representa um mal menor que o islamismo, pois defende alguns espaços de autonomia cultural e mantém a vaga esperança de uma liberação futura. Durante os anos 1990, intelectuais laicos apoiaram o Estado argelino na sua luta contra os islamitas. No Egito, o escritor Sayyid Al-Qemmi beneficiou-se da proteção do Estado após ter sido condenado por um fatwa (pronunciamento religioso). Chegou a ser condecorado, em junho de 2009. O equilíbrio precário que reina entre os diferentes atores sociais deixa o poder de mãos livres para prosseguir com sua política de repressão, sempre brutal, mas agora mais focalizada, favorecendo a imposição da norma salafista. Para os intelectuais, essa situação frustrante pode acarretar diferentes formas de capitulação política. De um lado, assistimos a uma “fuga de cérebros”, real ou virtual. Muitos artistas e escritores vivem no exterior ou se dedicam a um público afastado de seu país. Apresentam-se como “árabes” e “muçulmanos”, mais do que como egípcios ou tunisianos. Adotam uma identidade na qual os elementos fundadores são próximos aos do salafismo; escrevem em fosha e consideram que o “árabe” é sinônimo de “muçulmano”. Membros de uma diáspora geográfica ou ideológica, eles perdem o contato com seu país e seu povo, preferindo o nome genérico de “árabes”. Assim, os intelectuais se desinteressam facilmente pelos conflitos sociais em seu país e diluem-se na unidade abstrata da comunidade internacional. A ausência de uma política nacional de apoio à criação alimenta o individualismo e a despolitização dos produtores culturais, que vão procurar audiência e recursos no exterior. Muitos mecenas preferem o terreno cultural “esterilizado” para reformar a sociedade. É o caso da Fundação Ford, da Fundação Soros ou dos filantrópicos das monarquias petrolíferas. Assim, galerias de arte e luxuosas vitrines do Golfo expõem uma quantidade de produtos destinados a representar a identidade árabe-muçulmana, mas, em consequência de seu apoio financeiro ocidental, permanecem desconectados da sociedade. No campo do romance, várias distinções concorrentes promovem os “melhores” produtos da cultura árabe: o prêmio Emirates Foundation International, para o romance; o prêmio literário do Blue Metropolis Al-Majid Ibn Daher (Líbano); o prêmio internacional da ficção árabe, com a Booker Foundation (Londres). O fato de nossos artistas participarem do jogo cultural planetário, não tem nada de repreensível – isso pode até representar um progresso. Entretanto, valorizado na cena mundial, o artista “árabe” corre o risco de se afastar do povo de seu país. E perder, assim, todo o papel emancipador. A internet certamente abriu novos espaços à produção e ao consumo de bens culturais. Mas, se a rede pode tornar mais eficiente um movimento de contestação já existente, ela não produz em si mesma a consciência política. Ela pode servir de instrumento para ampliar uma mobilização, como vimos no Egito, mas não pode substituir o paciente trabalho de campo que a organização de uma luta requer.2 A rede contribui também para o isolamento e a segmentação. Seus usuários formam, em geral, pequenos grupos discretos que se comunicam exclusivamente – e muitas vezes anonimamente – por meio de suas telas, sem contato com o exterior, em uma rotação contínua. O anonimato permite aos descontentes exibir sua radicalidade, afastando qualquer confrontação aberta com o inimigo e as consequências que podem decorrer disso. Na internet, é possível ridicularizar o governo e fugir do mundo real. Sem engajamentoRenegando o papel que assumiam (e que assumem ainda, às vezes, nos países muçulmanos como Irã ou Turquia), os artistas e os intelectuais não são mais a ponta de lança de um movimento social, político e cultural. Parecem mais uma facção de cortesãos vivendo em protetorados do Estado ou com alguns padrinhos ricos e poderosos. Encarnada recentemente pelo escritor egípcio Sonallah Ibrahim, ou pelo grupo musical marroquino Nass El Ghiwan, a figura do artista contestador desapareceu. No Egito, por exemplo, o pintor de vanguarda Farouk Hosni é, atualmente, ministro da Cultura. Na Síria, a tradutora de Jean Genet, Hanan Kessab Hassan, foi nomeada, em 2008, comissária geral de “Damasco, capital árabe da cultura”, um programa apoiado pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura). Por mais interessantes que sejam suas ideias sobre a cultura e a sociedade, artistas como Wael Chawki (que teve obras expostas na Bienal de Alexandria) ou Hala El Koussi (vencedora do prêmio Abraaj Capital Art, concedido em Dubai) se mantêm afastados de qualquer engajamento político. Uma coisa é certa: para que o trabalho artístico e intelectual favoreça a democratização política e social, é interessante contestar a norma salafista em seu próprio terreno, propondo uma alternativa plausível. Longe de adotar um modelo prefabricado, interessa ir buscar essa alternativa na tradição árabe e muçulmana que, durante séculos, multiplicou os espaços de autonomia cultural. Essa nova norma pública adaptada ao mundo e às nossas tradições é um dos pilares de qualquer projeto autêntico de democratização. Ela não poderia ser construída sobre a negação do desafio salafista. Nem cedendo a suas condições. Hicham Ben Abdallah El Alaoui é primo do rei do Marrocos, Mohammed VI, e pesquisador visitante do Center on Democracy, Development en the Rule of Laz, da Universidade de Stanford, Estados Unidos. 1 Lançada pelo príncipe saudita Al-Walid ben Talal. Ler Yves Gonzalez-Quijano, “Le clip video, fenêtre sur la modernité arabe”, “Culture, mauvais genres”, Manière de voir, nº 111, junho-julho de 2010. 2 Como o demonstrou no Egito a “revolta Facebook” contra o presidente Moubarak, na primavera de 2008. |
A época dos organismos geneticamente fabricados
13:28 | Postado por
Jutahy
| BIOLOGIA |
| A época dos organismos geneticamente fabricados |
A biologia sintética não se limita à observação: agora ela passa pela engenharia e já é um grande mercado onde se pode adquirir diferentes peças para “montar” novos víruis, bactérias e leveduras. Mas os riscos da disseminação acidental ou deliberada de organismos artificiais suscitam preocupações |
| por Dorothée Benoit-Borwaeys |
Rumo à industrialização da vida? O anúncio, de 21 de maio, do pesquisador Craig Venter, sobre a fabricação de uma bactéria com genoma artificial pode sugerir que estamos próximos disso. A biologia sintética já é um grande mercado, onde existem muitas “peças” para construir vírus, bactérias ou leveduras. Chegou, então, a onda dos organismos geneticamente fabricados. “Nós precisamos de vocês! O poder de suas ferramentas implica responsabilidade.” Com essas palavras o agente do FBI (Federal Bureau of Investigation), Ed You, desafiou os estudantes, vindos do mundo todo, para a competição de biologia sintética iGEM (Competição Internacional de Máquinas Construídas Geneticamente), realizada em Boston, nas instalações do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Em outubro de 2009, o FBI, parceiro do evento, pretendia transmitir uma mensagem aos jovens adeptos: “sem eles, não será possível vigiar o bioterrorismo!” Piers Millett, do bureau de armas biológicas das Nações Unidas (Genebra), sugeriu a criação de um código de conduta “para melhor segurança, que permita um trabalho mais divertido”, posto que a exploração lúdica continua a ser o motor desse encontro anual. O princípio da competição é simples, cada uma das 112 equipes participantes (1.700 alunos), da sexta edição do iGEM, apresentou sua “criação bacteriana artesanal”. Cada uma delas cortou, enxertou e juntou genes para produzir um medicamento, emitir odores, um sinal luminoso intermitente ou detectar arsênico. Nessa grande cozinha da vida artificial, durante os dois dias de apresentações ininterruptas, as receitas foram discutidas, contestadas ou alteradas. A única regra desse grande “jogo” é contribuir com o caldeirão comum, cada um publica seus resultados com livre acesso (código aberto) na coleção de “biobricks”1, pedaços de DNA que comandam funções-chave (ver glossário). “Hoje existem cerca de cinco mil”, sorriu Randy Rettberg, engenheiro de inteligência artificial, um dos fundadores do jamboree, abrindo o freezer onde são mantidos esses “pedaços de genes sintéticos” gerados pela BioBricks Foundation. “O objetivo é ter um jogo de Lego genético”, disse Tom Knight, que, também, passou da informática (software) para a programação da vida artificial (wetware). Com os biobricks, o MIT estabeleceu um modelo padrão de intercâmbio, que permite comandar “peças individuais compatíveis” vivas, como é feito no computador com o código fonte ou na eletrônica com os circuitos impressos. No entanto, a comunidade científica não se favorece do MIT. “Essa competição iGEM é divertida para adolescentes, diz Victor de Lorenzo, coordenador do programa de biotecnologias sintéticas do Centro de biotecnologia de Madrid. “Nenhum trabalho é publicável, porque as provas de viabilidade são geralmente insuficientes, como pesquisadores, usamos nossas sequências genéticas, produzidas em nossos laboratórios”. Esse é um marco na história da genética. Em 1953, Francis Crick e James Watson publicaram, na revista Nature, a descrição da estrutura em dupla hélice do DNA, o portador da informação hereditária2. Meio século depois, a humanidade acumulou uma quantidade impressionante de informações sobre a composição molecular da vida. A biologia sintética não se limita à observação, agora ela passa pela engenharia. Ela coloca em prática o lema do grande físico Richard Feynman: “Só conhecemos o que fabricamos”. Praticada por mais de dez mil laboratórios em todo o mundo, a disciplina tem sido possível porque agora se sabe sintetizar rapidamente – e 20 vezes mais barato que em 2000, 35 centavos de euro por par de bases – sequências codificantes de DNA e porque o poder de computação pode dissecar e conceber sistemas vivos. A biologia sintética não é um simples desenvolvimento da biologia molecular, é a disciplina dos organismos geneticamente modificados (OGM). A ambição desses engenheiros é de programar sistemas biológicos com base nos princípios do design, módulos-padrão e otimização. Todos os pesquisadores falam de “chassis”, em referência ao suporte no qual são enxertadas funções. Eles planejam a construção de genomas inéditos. Alguns defendem, para evitar a contaminação da biologia natural, uma expressão que não é mais incongruente, fazer “divergir radicalmente essas criações biológicas dos organismos conhecidos”3. Por exemplo, usando um alfabeto diferente do ATGC. Além da manipulação dos genes e dos OGM, trata também da construção de genomas a partir do zero e da produção de organismos geneticamente fabricados (OGF). O horizonte é a “industrialização da biologia”, diz Richard Kitney, diretor de sistemas de biologia medicinais do Imperial College de Londres. Novos mercadosO setor gera um frenesi de investimento, pois está inserido em novos mercados altamente especulativos: a energia, com a produção de bicombustíveis e a bolsa de emissões de CO2, determinada pelo Protocolo de Quioto; a farmacêutica, com organismos transformados em fábricas de medicamentos; a química, em geral, com a síntese de moléculas complexas ou tecidos biológicos, a detecção de substâncias (organismos “sentinelas”) ou a descontaminação ambiental. Essas áreas de aplicação são também as categorias de avaliação do iGEM, provando que a ciência e o mercado, para a bioengenharia, são cada vez mais inseparáveis. Craig Venter foi um dos pioneiros do sequenciamento do genoma humano em 19904. Em 20 de maio último, anunciou, na revista Science, a criação da “primeira bactéria sintética5”. O pesquisador foi capaz de fabricar, por meio de montagens de sequências copiadas sobre as da bactéria Mycoplasma mycoides (agente da pleuropneumonia de bovinos), um cromossomo “artificial” que foi, por sua vez, reinjetado em outra bactéria (Mycoplasma capricolum, que infeta caprinos), despojada de seu genoma. A célula assim criada funcionou, se reproduziu e formou colônias. A revista Nature Biotechnology ilustra a expansão da área publicando as definições díspares de 20 especialistas nesse domínio6. Três abordagens concorrentes focalizam a engenharia com escalas diferentes. A primeira se baseia nos componentes genéticos, a segunda em todo o genoma, e a última nas paredes da célula7. Na primeira categoria estão as etapas de montagem bottom-up promovidas no iGEM. A cultura de engenharia de seu líder, Drew Endy, valoriza a ideia de tijolos de Lego molecular. Transformando micro-organismos em sistemas controláveis, pesquisadores como Tim Gardner, Jim Collins ou Stanislas Leibler (Caltech), demonstraram, em 2000, que poderíamos fazer o design de módulos-padrão capazes de programar comportamentos. A segunda abordagem é um processo de miniaturização top-down. Trata-se de criar o “genoma mínimo vital”, uma espécie de “chassis de base”, sobre o qual se pode enxertar qualquer módulo funcional. Uma das equipes de Craig Venter conseguiu reduzir o genoma da bactéria E. Coli em 15%, eliminando as partes não codificantes e não vitais. Prêmio Nobel em 1978, Hamilton Smith, anunciou, em janeiro de 2008, a síntese do cromossomo completo (reduzido a 386 em vez de 517 genes) da bactéria Mycoplasma genitalium. Entretanto, a prova do seu funcionamento, uma vez reinserido na bactéria, privada do seu material genético, falta ser feita. A terceira proposta retoma os trabalhos sobre a origem da vida. Ela se centra na capacidade de automontagem de moléculas que encontramos na parede celular. Pesquisadores como Jack W. Szostak, da Harvard Medical School (Boston), tentam fabricar protocélulas, isto é, espaços biológicos fechados. Autor do primeiro cromossomo artificial de levedura, Szostak colocou em evidência a capacidade espontânea de ácidos graxos bipolares (nos quais uma terminação procura as moléculas de água – hidrofílica – e a outra as rejeita – hidrofóbica) para se agrupar e formar uma esfera em reação à água8. Szostak concorda, “há muitas oportunidades para fazer emergir as propriedades de autoorganização, a replicação que temos obtido não é totalmente autônoma, mas nunca estivemos tão perto de transformar as moléculas em organismos vivos”. Essas tentativas evocam as investigações sobre a morfogênese (nascimento das formas) realizadas há um século pelo médico Stephane Leduc9, imitando formas, cores, texturas e movimentos de organismos vivos em “jardins químicos”. Em seu livro “A Biologia Sintética” (1912), Leduc desenvolveu uma ambiciosa teoria físico-química da vida para apoiar suas convicções materialistas e antivitalistas10. O geneticista polonês Waclaw Szybalski não se enganou, em 1978, quando previu o advento da biologia sintética. “Até agora, trabalhamos na fase descritiva da biologia molecular. Mas o verdadeiro desafio será a busca de uma biologia de síntese, vamos criar os elementos novos de controle e adicionar esses novos módulos aos genomas existentes, construindo novos genomas. Esse será um campo de expansão ilimitado para fabricar circuitos mais bem controlados e organismos sintético.11”. Compreendemos o entusiasmo de Drew Endy, que considerou que “programar com DNA é mais legal, mais atraente e poderoso do que com silício.” Ele diz, porém que “A biologia sintética é a plataforma mais emocionante já produzida pela ciência, mas as questões que levanta são também as mais difíceis. Assustadoras como o inferno12”. Os riscos da disseminação acidental ou deliberada de organismos artificiais suscitam preocupações. Quando esses produtos saírem do laboratório, no caso de projetos dedicados à limpeza da poluição, será uma condição para o sucesso evitar que eles se misturem com outros organismos. Para esse fim, alguns biólogos preconizam confiná-los, empregando transportadores de informação genética diferentes dos que existem hoje e incompatíveis com esses, como os ácidos xenonucleicos. No entanto, mesmo se conseguirmos evitar qualquer cruzamento biológico, esses organismos sintéticos poderiam entrar em competição com a natureza para o acesso a nutrição. Para isso, temos que desenvolver um “confinamento trófico” (ou nutricional), o organismo servindo de chassis seria concebido para ser capaz de sobreviver apenas na presença de substâncias raras ou desconhecidas na natureza, como o flúor ou a sílica. Isso permitiria interromper sua proliferação. Outras preocupações estão relacionadas com o fantástico viveiro de novas formas de armamento biológico. Um jornalista relata que, em 2006, foi capaz de encomendar, de uma empresa privada, uma parte do DNA do vírus da varíola13. A comunidade dos “hackers” da biologia que compram as sequências de DNA pela Internet também reflete os riscos do livre fluxo de genes modificados. Enquanto que os genomas do vírus perigosos foram recriados por Eckard Wimmer (poliomielite, na Universidade Estadual de Nova York) e Jeffrey Taubenberger (gripe espanhola, no Instituto Americano das forças armadas), constatamos que poucas salvaguardas estão previstas. Exemplar, a empresa americana Blue Heron Biotechnology se recusa a honrar pedidos perigosos. Ela utiliza um software de digitalização sistemática para detectar as sequências de agentes classificados como “bioterrorismo” e rejeita o pedido. Mas apenas um terço das empresas mostra esse tipo vigilância. Vigilância“Deveríamos nos preocupar com a falta de realismo dos cientistas em relação aos usos militares”, argumenta Alexander Kelle, pesquisador do Centro para Investigação sobre desarmamento de Bradford, que conduziu uma pesquisa no quadro do projeto SynBioSafe14. Um grupo composto por pesquisadores, representantes de órgãos do governo dos EUA e da indústria propôs um plano para controlar a elaboração de sequências de DNA15. Alguns estão pedindo uma lei que exige vigilância de todos os fabricantes de genomas sintéticos16. Embora a atual regulamentação sobre os OGM seja aplicável aos organismos sintéticos, ela não prevê os casos de organismos destinados à disseminação, que devem ser avaliados de maneira especifica17. No âmbito internacional, existem discussões animadas sobre a definição de “OGM”, indicando uma forte vontade de alguns grupos de excluir os “organismos artificiais” dessa denominação. Com a consequência de evitar as restrições regulamentares. A pesquisa de métodos biológicos para produzir energia a partir de matérias-primas agrícolas poderia desviar cada vez mais produtos agrícolas para alternativas energéticas ou químicas, em detrimento da alimentação humana. No Congresso mundial Synbio 4.0, realizado em Hong Kong, em outubro de 2008, o grupo canadense ETC (Erosão, Tecnologia e Concentração), encarregado de uma sessão sobre as implicações sociais da biologia sintética, publicou um dossiê inquietante sobre os riscos da captação de recursos alimentares18, mostrando como as indústrias do açúcar, petróleo e produtos químicos estão se reagrupando, para a grande felicidade dos fabricantes de vida artificial. 1 http://bbf.openwetware.org/ 2 Com a contribuição da cristalógrafa Rosalind Franklin, que obteve o primeiro bloco de ácido desoxirribonucléico. 3 Philip Marlière, Universidade de todos os conhecimentos, 7 julho de 2008. 4 Leia John Sulston, “O genoma humano resgatado da especulação”, Le Monde Diplomatique, dezembro de 2002. 5 Veja Herve Le Crosnier, “A caixa de pandora da biologia sintética” e “os pregadores da genética extrema”, Pulgas sábias, Blogs do Diplô, respectivamente, 21 de maio e 17 de junho de 2010. 6 Nature Biotechnology, New York, dezembro de 2009. 7 Maureen O’Malley, Alexander Powell, Jonathan F. Davies, Jane Calvert, “Fazendo-conhecimento, distinções em biologia sintética”, Bioessays, Cambridge, 2007. 8 Vídeo apresentado com o artigo de Alexis Madrigal, “Biólogos a ponto de criar nova forma de vida” Wired.com, 8 de setembro de 2008. 9 Veja a exposição “Recriando a Vida? Jardins químicos e células osmóticas”, Espci.fr, setembro de 2007. 10 O vitalismo é uma tradição filosófica para a qual a vida não é redutível a leis físico-químicas. 11 Waclaw Szybalski, “Prêmio Nobel e enzimas de restrição”, Gene, vol. 4, Nº. 3, 1978. 12 Michael Specter, “A vida própria”, The New Yorker, setembro de 2009. 13 James Randerson, “Lax, leis, vírus DNA e o potencial para o terror”, The Guardian, Londres, 14 de junho de 2006. 14 A. Kelle, “Biologia Sintética e consciência da Biossegurança na Europa”, Synbiosafe / Bradford Ciência e Tecnologia, Relatório Nº 9. www.brad.ac.uk 15 “Síntese de DNA e Segurança Biológica”, Nature Biotechnology, Junho de 2007. 16 Raimundo A. Zilinskas e Jonathan B. Tucker, “A promessa e os perigos da biologia sintética”, The New Atlantis, Washington, 2006. 17 Michael Rodemeyer, “Vida Nova, Garrafas Velhas”, Woodrow Wilson International Center for Scholars, 25 de março de 2009. 18 “A última palha na comodificação da natureza? Engenharia Genética Extrema e a Economia do Açúcar Pós-Petróleo”, ETC Group, http://etcblog.org |
Escândalos na frança
13:26 | Postado por
Jutahy
| A alta sociedade e o baixo-império |
| por Serge Halimi |
| Uma avalanche de revelações vem causando estupefação na França... Dirigentes políticos cultivariam amizade com homens e mulheres de negócios. Os segundos estariam financiando os partidos dos primeiros e suas respectivas campanhas. Em troca, eles obteriam uma redução substancial de impostos. Mais estupendo ainda: a diminuição dos encargos fiscais sobre as rendas elevadas (cerca de 100 bilhões de euros em dez anos) teria beneficiado, sobretudo... as rendas elevadas, protegidas desde 2006 por um “escudo” criado com essa finalidade. Por fim, estaria crescendo o número de governantes interessados em comprovar por conta própria os rigores da nova lei comum: ao trocar de carreira, eles optam pelo mundo dos negócios, em detrimento do sindicalismo. Com isso, o “caso Bettencourt” tornou visível algo que já era evidente. Em abril passado, quando os repórteres investigativos estavam distraídos, e com eles os professores de virtude, Bernadette Chirac1 ingressou no conselho de administração do LVMH, o grupo do setor do luxo de propriedade de Bernard Arnault, a principal fortuna da França. Exatamente no mesmo momento, Florence Woerth2 descolava um cargo de administradora na Hermès, ela que já se vinha dedicando – sem que isso provocasse qualquer alvoroço – a gerenciar as finanças de Liliane Bettencourt, a segunda maior fortuna da França. Eric Woerth reagiu, afirmando: “Eu sou ministro da igualdade entre homens e mulheres; portanto, seria um equívoco querer frear a carreira da minha mulher [...] paralelamente à minha3.” Ninguém o condenaria por prezar pelo desenvolvimento profissional da sua mulher, mas tampouco houve alarme com o “paralelismo” assim traçado entre o percurso de uma gestora de grande fortuna interessada em obter uma “otimização fiscal” nas ilhas Seychelles e o de um ministro dos assuntos sociais que se prepara para amputar a aposentadoria dos pobres. Tudo isso ocorreu antes do “caso Bettencourt”. As relações entre o dinheiro e o poder eram exatamente o que elas são hoje. Mas, na época, tudo ia bem. Portanto, vale não menosprezar as virtudes pedagógicas do “escândalo” atual: um jovem e ambicioso secretário de Estado para o emprego que tira proveito de uma viagem oficial a Londres para implorar a gestores de fundos especulativos que financiem seu grupelho pessoal chamado “Novo Oxigênio”; uma taxa de impostos sobre a renda situando-se entre 1% e 6% por ano no caso da Sra. Bettencourt4 (o escudo funciona...); uma jornalista estrela que descola uma entrevista no canal de TV aberto TF1 com a proprietária da L’Oréal, e que explica: “Eu a conhecia por ter jantado com ela e seu marido na casa de amigos comuns. Também chegamos a nos encontrar por ocasião de exposições”. Para que este caso tentacular se torne o Colar da Rainha5 da nova oligarquia francesa, será necessário, entretanto, que ele desemboque no fim das promiscuidades entre o público e o privado, sem esquecer os “bons entendimentos” dos jornalistas que, com isso, formalizaram em contrato sua conivência com o dinheiro. Em contrapartida, o tumulto do último mês de nada terá servido se a esperança de purificar um ambiente de baixo-império levar a eleger como presidente um irmão siamês de Nicolas Sarkozy. Por exemplo, o diretor-geral do Fundo Monetário Internacional6. As grandes fortunas celebrariam a vitória de um socialista de negócios num outro Fouquet’s7. E tudo recomeçaria. Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França). |
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